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O carnaval é manifestação popular, a exemplo de outras como o folclore, as festas religiosas, o futebol, tanto a gosto dos brasileiros. Em razão das transformações sociais e tecnológicas, esses acontecimentos vêm sofrendo mudanças em suas essências. O carnaval perdeu em originalidade e pureza.

 

Os blocos de rua, eram constituídos de amigos e conhecidos, de um mesmo setor e mesma região; as pessoas punham-se às janelas e nas calçadas a observar a passagem dos foliões, com suas alegres e divertidas fantasias, brincando com água, perfumes, talco, serpentinas e confetes.

 

Os concorridos bailes, nos salões ornados tipicamente, eram animados por bandas e embalados ao som de marchinhas, antigas e novas, entoadas com humor e alegria.

 

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A indumentária naqueles dias exibia os homens com tradicionais calças e sapatos brancos, camisas multicores e chapéu de modelo próprio. As mulheres, com lindas e graciosas fantasias ou shorts e camisetas pintadas, maquiagens fortes e adereços exuberantes.

 

Os excessos, apenas de bebidas, entre alguns, já eram observados.

 

Escolas de samba? Somente no Rio de Janeiro, onde tudo também começou de forma simples, pela gente pobre e negra dos morros, de raiz.

 

Hoje, o carnaval é outro.

 

Os blocos de rua se agigantaram. São hoje multidões de pessoas desconhecidas, identificadas apenas por seus “abadás” , amontoadas atrás dos trios elétricos.

 

Os novos costumes mostram-se bem diversos : As bebidas e as drogas são os fatores primordiais da animação. A sensualidade deu lugar à nudez completa. O sexo livre e meramente “carnal, faz alastrar as DSTs (doenças sexualmente transmissíveis) e a AIDS em particular, bem como as gestações indesejadas, somente remediadas por tímida campanha da saúde pública e a farta distribuição de preservativos.

 

Os pobres e os negros perderam o comando das Escolas de Samba. Não obstante estejam elas ainda morando nos morros e nas comunidades periféricas, o controle está nas mãos infectadas dos chefes do tráfico de drogas e dos “bicheiros”, com o beneplácito das instituições e dos poderes públicos.

 

- Como se postar diante do carnaval nos dias modernos?

 

Se o carnaval passou por transformações profundas e tomou novo direcionamento, sem dúvida as pessoas também, em grande maioria, modificaram-se profundamente para melhor, sendo hodiernamente mais bem informadas, com maior conhecimento, mais conscientes e bem melhor determinadas.

 

Agora, quando as interligações dos povos são globalizadas, as pessoas tornaram-se mais autônomas e independentes, mais cônscias dos seus direitos e de suas responsabilidades, verificando-se, por isso, crescente consciência coletiva ambiental, em termos de Mundo.

 

Em nosso País, as transformações foram verdadeiramente extraordinárias. Por exemplo : o voto de cabresto cedeu lugar à urna eletrônica; já não se punem apenas os “ladrões de galinha”; os políticos corruptos e os criminosos de “colarinho branco” são processados e presos, muito embora estes sejam ainda encarcerados em “gaiolas de ouro” e não em “jaulas” entulhadas, onde os pobres apodrecem e morrem sem as mínimas condições e sem dignidade humana.

 

As pessoas já percebem que o carnaval não passa de falsa alegria, onde sobejam os excessos de toda ordem. Verifica-se que as conseqüências derivadas desses festejos são muito mais prejudiciais do que positivas: as célebres ressacas, os comprometimentos da saúde, os abalos emocionais duradouros, as marcas e manchas morais que não saram ou custam a sarar, os gastos e prejuízos financeiros elevados comprometedores dos orçamentos, os suicídios, os assassinatos, as mortes por acidentes no trânsito e tantas outras tristezas e mazelas.

 

Hoje, muito mais do que antigamente, a noção exata de que se tem do carnaval é aquela expressa na música “A Felicidade, composição de Antônio Carlos Jobim (Tom Jobim) e Vinicius de Moraes, nos versos que dizem:

 

“Tristeza não tem fim / Felicidade sim ...

 

A felicidade do pobre parece, / A grande ilusão do carnaval,

 

A gente trabalha o ano inteiro, / Por um momento de sonho

 

Pra fazer a fantasia, / De rei ou de pirata ou jardineira,

 

E tudo se acabar na quarta-feira.”

 

O carnaval muito se assemelha até mesmo ao Grande Circo de Roma. Naqueles idos, valia a falsa alegria, o prazer animalizado, a insensibilidade e a insensatez. Pouco importava à multidão ensandecida o sangue a jorrar na arena, as vidas perdidas, estraçalhadas pela violência dos embates ou pela voracidade das feras.

 

Com a inegável evolução atual, a maior parte das pessoas hoje prefere encarar o dia-a-dia sem as máscaras do carnaval, com a mente voltada para os valores mais relevantes da existência e os pés com a mesma firmeza de sempre.

 

A questão não é ser a favor ou contra o carnaval. O assunto se resume em opção e consciência. É possível viver, dentre tantas, também a ilusão do carnaval.

 

Ilusão de vivenciar uma pseudo-alegria, deixando no esquecimento as gritantes desigualdades sociais, o desemprego, pessoas a morrer de fome, os menores desamparados, a prostituição infantil, o trabalho escravo, a violência, a corrupção que grassa, os problemas ambientais, a falência dos transportes coletivos, a enorme deficiência do sistema público de saúde, a morosidade da Justiça, a ineficiência da Segurança Pública; como se essas realidades simplesmente e por milagre, estivessem resolvidas com o advento dos folguedos carnavalescos.

 

Com enorme discernimento Paulo, o apóstolo dos gentios, em sua I Carta aos Coríntios, já proclamava : “”Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém.".

 

Se o carnaval é permitido aos que se comprazem com a alegria fugaz, os excessos, os riscos e, enfim, com as quimeras, sem avaliação exata das graves consequências dele decorrentes; não convém aos que cultuam os valores essenciais da vida, aos que buscam e se esforçam no sentido de evoluir, aos que constroem suas vidas em bases sólidas e verdadeiras, aos que trilham os caminhos da existência com sobriedade, não se dando ao "luxo" de vivenciar as ilusões carnavalescas. Absolutamente não convém àqueles que, tendo superado os limites do egoísmo, não se esquecem, nem mesmo por poucos dias, das aflições do próximo, convictos de ser essencial viver a realidade calcados na solidariedade humana.

 

Luciano Fonsêca